julio-unitaLuanda - Júlio Baião foi soldado durante toda a sua vida: começou em 1959 no exército português, mas desertou em 1961 e integrou os movimentos de libertação. Depois da independência lutou contra o MPLA, na fileiras da UNITA.

Júlio Baião, veterano de guerra angolano: foi soldado nas fileiras do exército colonial português, mas desertou e lutou nas fileiras da UPA e da FNLA. Depois da independência combateu o MPLA nas fileiras da UNITA

Júlio Baião, nascido em 1932, foi um simples soldado durante toda a sua vida, um veterano de guerra que chegou a atingir o grau militar de tenente-coronel. A vida militar de Júlio Baião começou no exército colonial português. Mas em 1961 desertou e integrou a União dos Povos de Angola (UPA), cujos dirigentes se refugiavam no Congo.

Depois da independência lutou contra o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), nas fileiras da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA).

Hoje, Júlio sente-se desiludido. Sente que a sua luta não é devidamente reconhecida por parte da sociedade. Critica também a "falta de democracia" em Angola. A entrevista teve lugar no recinto de uma antiga caserna militar soviética, hoje pertencente à UNITA, no município de Viana, nos arredores de Luanda.

DW África: Nasceu em 1932 na província do Huambo. A sua vida militar começou em 1959 no exército colonial português. Certo?

Júlio Baião (JB):Exatamente. Em 1959 decidi entrar na vida militar. Ingressei na tropa portuguesa, na província do Huambo. Efetuei os meus treinos no Huambo e em Sá da Bandeira [hoje Lubango]. Depois de nove meses de instrução fui transferido para Luanda.

Em Luanda os portugueses disseram-nos: "vocês têm que treinar muito porque vão para a guerra na Índia." Mas a guerra não era na Índia, era em Angola! Foi em 1960 que começou a guerra dos portugueses contra os angolanos e dos angolanos contra os portugueses. Eu estava presente quando foi disparado o primeiro tiro aqui em Angola. A luta começou em Cabinda, lembro-me bem, numa montanha na região de Miconje.

Mapa no norte de Angola: foi no enclave de Cabinda que - segundo confirma o veterano Júlio Baião - começou em 1961 a luta de libertação nacional de Angola

DW África: Em Cabinda, onde tudo começou, qual era o movimento que iniciou a guerra contra o exército colonial português?

JB: A tropa que iniciou a guerra aqui em Angola foi a União dos Povos de Angola (UPA). A UPA é que nos bateu primeiro em 1960. Não há mais partido nenhum que começou a guerra, se não a UPA! Eu sou testemunha disso.

Eu inicialmente lutei com os portugueses contra a UPA porque não sabia. Os portugueses começaram por nos dizer que os combatentes da UPA eram bandidos e que queriam ficar com Angola. Mas de facto era o contrário.

DW África: Foi aí que o Sr. Júlio desertou da tropa portuguesa, ao ver que estava a combater um "exército de libertação"?

JB: Sim, foi por isso que eu fugi. Foi em dezembro de 1960 e fui para o Congo Leopoldville [hoje Kinshasa, República Democrática do Congo]. Foi ali que Holden Roberto [líder da FNLA – Frente Nacional de Libertação de Angola] e Jonas Savimbi [líder da UNITA] nos recolheram e nos integraram na tropa deles. Holden Roberto e Jonas Savimbi vieram falar com Mobutu [Presidente do Zaire, hoje República Democrática do Congo] e pediram para que a gente integrasse as tropas deles. E assim entrei na UPA em 1961 e participei na luta contra os portugueses até 1975.

DW África: Lembra-se dos ataques da UPA de 15 de março de 1961 que marcaram o início da guerra propriamente dita?

JB: Eu mesmo sou testemunha disso. Havia as fazendas no norte de Angola. Eram fazendas de café, de algodão e de outros produtos. E a UPA atacou essas fazendas. Foi ali que também começou a guerra. Primeiro em Cabinda, em 1960, e depois no norte de Angola, em 1961. E foi ali mesmo que eu estive…

A luta dos movimentos de libertação em Angola foi um combate de guerrilha. Inicialmente era feita com armas rudimentares, como "catanas ou canhangulos", como conta o soldado veterano Júlio Baião. Mais tarde viraram símbolos da luta pela independência (foto de 1975)

DW África: Sabe-se que os revoltosos ligados à UPA atacaram povoações e fazendas, munidos de catanas e outras armas rudimentares. Lembra-se disso? Lembra-se das armas que utilizavam?

JB: Catanas, ferros, pedras. Só havia uma arma mais sofisticada, uma arma chamada canhangulo [espingarda antiga de fabrico artesanal, de um só cano comprido e estreito, que se carrega pela boca].

Com as catanas cortávamos as cabeças dos inimigos. Eu mesmo estive lá, com catanas, pedras, ferros… Depois fomos capturando algumas armas de fogo aos portugueses. Os nossos ataques eram rápidos. A gente atacava muito rápido e depois retirava-se. Era mesmo assim. Morreram muitos portugueses civis nas fazendas, e muitos soldados, até 1975.

DW África: Morreram também muitos angolanos?

JB: Muitos angolanos também, porque quando íamos atacar as aldeias, os portugueses retaliavam.

DW África: Valeu a pena tanto sofrimento?

JB: Aquele nosso sofrimento valeu a pena, porque os portugueses acabaram por abandonar o nosso país. Houve um acordo entre os portugueses e os angolanos. O que a gente queria era que Angola ficasse nas mãos dos angolanos, mas não foi bem isso que aconteceu.

A guerra civil de Angola acabou em 2002 com a morte do líder da UNITA, Jonas Savimbi. Na foto: praça no centro da cidade de Huambo, bastião histórico da UNITA

DW África: Viveu momentos difíceis?

JB: Muito difíceis! Mas valeu a pena, porque os portugueses foram embora. Era isso que a gente queria. Que os portugueses fossem embora para a gente ficar aqui em Angola, no nosso país. Mas o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola ) manipulou aquilo tudo e tomou o poder até hoje. Hoje está tudo na mão do MPLA, mas tudo é porcaria.

Quem lutou e quem venceu foi a UNITA e a FNLA. Foram esses os movimentos que lutaram contra os portugueses. O MPLA estava fora do país: estava em Brazzaville (República do Congo). Mas a UNITA não estava fora do país, estava aqui dentro de Angola!

DW África: O país, os angolanos, hoje são livres, ou falta ainda muito para terem a independência verdadeira?

JB: O que eu quero dizer é o seguinte: a paz ainda não chegou a Angola. A paz ainda não apareceu aqui em Angola. Continuamos à espera da paz. A população de Angola só tem sofrimento. Você encontra mutilados, você encontra viúvas, que estão a sofrer muito. Os antigos soldados sofrem, e o povo em geral está mal.

 
 
Ouvir o áudio 10:20

Ouvir a entrevista a Júlio Baião

DW África: Ainda há muitas feridas?

JB: Muitas mesmo. Até aumentaram. Estávamos melhor no tempo dos portugueses do que com o MPLA. No tempo do colono, a gente comia à vontade. O sofrimento que o MPLA impõe ao povo angolano é maior.

DW África: Chegou a conhecer os líderes dos movimentos? Holden Roberto, Jonas Savimbi, Agostinho Neto ou José Eduardo dos Santos?

JB: Eu vi. Eu vi António Agostinho Neto. Eu vi Holden Roberto. Eu vi Jonas Savimbi. Foi este último que me recebeu quando eu fugi da tropa portuguesa. Conheci também o José Eduardo dos Santos [Presidente de Angola], quando ainda era miúdo.

Encontrei-o em Leopoldville em 1961. Eu estive presente quando ele viajou para a União Soviética para estudar. Foi para a União Soviética em 1961. Em 1979 foi nomeado presidente depois de ter chegado da União Soviética com o corpo do Agostinho Neto. Foi aí que ele subiu imediatamente ao poder.

DW África: Qual é diferença entre Holden Roberto, Jonas Savimbi e Agostinho Neto?

JB: O grande problema é Agostinho Neto [primeiro Presidente de Angola, líder histórico do MPLA]. Holden Roberto trabalhou bem. Ele queria a paz. Jonas Savimbi: ele é que queria mesmo a paz!

Ele não lutou lá fora, ele esteve mesmo cá dentro. Era um homem verdadeiro, um verdadeiro guerrilheiro. Foi ele que lutou pela democracia. Ele queria mesmo a democracia aqui em Angola. Mas essa democracia não existe ainda, hoje em dia.

DW África: E qual é o seu sonho para o futuro dos jovens em Angola?

JB: Os jovens só vão ficar livres quando mudar esse poder do MPLA. Só então é que os angolanos vão viver bem. Se isso não acontecer, nunca mais os angolanos vão ser livres. Pode publicar tudo o que lhe digo. Não tenho receio que mencione o meu nome. Pois já sou velho. Se morrer não interessa. Eu chamo-me Júlio Baião Lundovi. O meu nome de guerra é Baião. Até hoje sou tenente-coronel. Mas muitos dos meus alunos, que eu instrui, são generais.

A independência de Angola ficou selada em janeiro de 1975 com a assinatura dos Acordos de Alvor, entre o governo português e os três principais movimentos de libertação de Angola, MPLA, FNLA e UNITA. Na foto, no meio: Jonas Savimbi, dirigente da UNITA

Criminalidade violenta regressa a Luanda
31 Jan 2018 15:56Criminalidade violenta regressa a Luanda

Criminalidade violenta regressa a Luanda Sacerdote e sociólogo apresentam propostas  [ ... ]

Leia mais...
SEGREDO….. EXISTE UM SISTEM ESTABELECIDO EM ANGOLA...
31 Jan 2018 15:29SEGREDO….. EXISTE UM SISTEM ESTABELECIDO EM ANGOLA MAS TU PODES QUEBRAR

Washington - SEGREDO….. EXISTE UM SISTEM ESTABELECIDO EM ANGOLA MAS TU PODES QUEBRAR Se essa não [ ... ]

Leia mais...
"DORAVANTE , EU RETIRO O APOIO QUE LHE PROMETI NO ...
10 Jan 2018 15:57

"Doravante, eu retiro o apoio que lhe prometi no condicional e retomo a minha luta como opositor ao  [ ... ]

Leia mais...
A CRISE A BATER NA PORTA DAS NOSSAS CASAS MAS ISAB...
10 Jan 2018 15:37

Luanda - A CRISE A BATER NA PORTA DAS NOSSAS CASAS E AO INVÉS DE TRAZER O DINHEIRO PARA ANGOLA DE [ ... ]

Leia mais...
CASO DO MANUEL VICENTE VAI COMPROMETER O GOVERNO D...
10 Jan 2018 15:23CASO DO MANUEL VICENTE VAI COMPROMETER O GOVERNO DO JOÃO LOURENÇO

Lisboa - A MINISTRA DA JUSTIÇA DE PORTUGAL LUSO-ANGOLANA, FRANCISCA VAN
DÚNEM, RESPONDE JOÃO LOUR [ ... ]

Leia mais...
ADMINISTRADOR DO CACUACO CARLOS ALBERTO CAVUQUILA ...
23 Déc 2017 13:07ADMINISTRADOR DO CACUACO CARLOS ALBERTO CAVUQUILA ACUSADO DE EXTORSÃO E DE CORRUPÇÃO

ADMINISTRADOR DO CACUACO CARLOS ALBERTO CAVUQUILA ACUSADO DE EXTORSÃO E DE CORRUPÇÃO. Nos últ [ ... ]

Leia mais...
JOÃO LOURENÇO NÃO BRINCA
23 Déc 2017 13:01JOÃO LOURENÇO NÃO BRINCA

JOÃO LOURENÇO NÃO BRINCA E ATÉ EXONERA UM… MORTO!
sidente da República, João Manuel [ ... ]

Leia mais...
JOÃO LOURENÇO ISONERA O FALECIDO JOSÉ PEDRO TONET...
23 Déc 2017 12:56JOÃO LOURENÇO ISONERA O FALECIDO JOSÉ PEDRO TONET

Luanda - JOÃO LOURENÇO ISONERA O FALECIDO JOSÉ PEDRO TONET que exercia as funções de administ [ ... ]

Leia mais...
JES trava investigação criminal contra filha
23 Déc 2017 12:32JES trava investigação criminal contra filha

JES trava investigação criminal contra filhaO Presidente do MPLA, José Eduardo dos Santos s [ ... ]

Leia mais...
"Angola está à beira do colapso", denuncia Abel Ch...
26 Nov 2015 01:03

Luanda - Líder da Casa-CE revela estratégia de dirigentes do regime de levar dinheiro para o exter [ ... ]

Leia mais
Samakuva expulsa jornalistas
26 Nov 2015 00:21Samakuva expulsa jornalistas

Luanda - O Jornal de Angola, também conhecido por Pravda ou Boletim Oficial do regime, foi impedi [ ... ]

Leia mais
Eleições em Agosto de 2017
26 Nov 2015 00:14Eleições em Agosto de 2017

Luanda - As próximas eleições gerais em Angola deverão realizar-se em Agosto de 2017, disse ho [ ... ]

Leia mais
Parlamento angolano - À falta de José Eduardo dos ...
25 Nov 2015 02:14Parlamento angolano - À falta de José Eduardo dos Santos sobrou o silêncio

À falta de José Eduardo dos Santos sobrou o silêncio Discurso sobre o Estado da Nação troux [ ... ]

Leia mais
RESUMO DO SEXTO DIA DO JULGAMENTO DOS 15+2 “TAPAS ...
25 Nov 2015 00:15RESUMO DO SEXTO DIA DO JULGAMENTO DOS 15+2 “TAPAS A CARA EU TAPO A BOCA”

Luanda - - TPA GANHA EXCLUSIVIVIDADE DE IMAGENS DO TRIBUNAL  2- QUESTÕES DA ACUSAÇÃO AO REU  [ ... ]

Leia mais
Sociedade civil angolana quer que PR fale sobre cr...
14 Oct 2015 22:24Sociedade civil angolana quer que PR fale sobre crise no país

Luanda - Discurso sobre o estado da Nação é amanhã. O discurso sobre o estado da Nação a  [ ... ]

Leia mais
O Desastre da Diplomacia do MPLA no Parlamento Eur...
14 Oct 2015 22:13O Desastre da Diplomacia do MPLA no Parlamento Europeu

Luanda - m 40 anos de poder, os dirigentes do MPLA têm evoluído pouco em termos de discurso  [ ... ]

Leia mais
Ana Gomes acusa Procuradoria angolana de estar ao ...
12 Oct 2015 10:28Ana Gomes acusa Procuradoria angolana de estar ao serviço do poder

Luanda - A eurodeputada Ana Gomes disse hoje à Lusa que a acusação de "rebelião", anunciada pel [ ... ]

Leia mais
outros artigos

ESCUTE A RÁDIO !

Publicidade : +32 493 84 66 30 +32 484 50 60 29

Angodiaspora sur faceboook

Estatistícas do Portal

2248857
Hoje
Ontém
Esta Semana
Semana Anterior
Este Mês
Mês Passado
Ao Total
348
407
1335
2241728
12084
34415
2248857

QUEM SOMOS NÓS ?

QUEM SOMOS NÓS?

Nós somos um grupo de jornalistas, ciêntistas, políticos, sociedade cívil e a Voz de sem Vozes, que pretendem transmitir através o mundo, o grito de um Povo sequestrado e oprimido de Angola e do mundo em particular.
Achamos que a informação deve ter fontes multíplas e essencialmente independentes dos poderes políticos e das forças económicas. Fazem parte desta independência, os jornais, a rádio, as televisões, os portais (web), os diferentes espaços sociais, assim como as instituições de sondagem e as instituições estatistícas.

Leia mais